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INGLÊS NA PERIFERIA: OS DESAFIOS DE SOBREVIVÊNCIA DA LÍNGUA MAIS FALADA DO MUNDO NAS QUEBRADAS PAULISTANAS
25 mar
Cultura e sociedade se cruzam em um idioma que, apesar de presente no cotidiano, ainda permanece distante de grande parte da população.
Presente na matriz curricular escolar, desde cedo estudantes brasileiros têm contato com o ensino de uma língua estrangeira. No modelo educacional vigente, o inglês aparece como componente obrigatório, mas, na prática, o tempo dedicado ao idioma e as condições de ensino variam significativamente entre as redes e territórios.
Mesmo com a presença do inglês nas escolas, o domínio do idioma ainda é restrito a uma parcela pequena da população. Para muitos estudantes da periferia, o contato com a língua acontece de forma fragmentada, distante do uso cotidiano e sem aprofundamento suficiente para gerar autonomia.
Em um mundo cada vez mais globalizado, o inglês se faz presente de maneira constante. Músicas, filmes, séries, jogos e aparelhos eletrônicos circulam, muitas vezes, sem tradução ou adaptação. A tendência é que esse contato aumente, ampliando a diferença entre quem compreende o idioma e quem apenas consome conteúdos sem entendê-los por completo.
“O inglês está por toda a parte. É uma necessidade, tem se tornado cada vez mais, mas no patamar em que estamos ainda é um diferencial e é isso que tentamos passar para as crianças da periferia” — Cristiane, professora da turma de inglês Kids na ONG
Desigualdade educacional brasileira
O ensino público enfrenta desafios históricos que impactam diretamente a aprendizagem. A falta de infraestrutura adequada, o acesso limitado à internet, a ausência de laboratórios e a desvalorização dos profissionais da educação fazem parte da realidade de muitas escolas.
No ensino do inglês, essas dificuldades se refletem em aulas excessivamente teóricas, com pouco espaço para a prática oral e a vivência real do idioma. Em muitos casos, o aprendizado fica restrito ao básico, sem conexão com o cotidiano dos estudantes.
Fora da escola pública, o acesso ao ensino de inglês costuma estar associado a cursos particulares e materiais didáticos pagos, o que torna o aprendizado inacessível para grande parte das famílias que vivem nas periferias. Assim, o idioma segue sendo um marcador de desigualdade social.
Aproximando sonhos com os estudos
“Eu quero ser jogador de futebol. Quero poder ir para fora, conversar, falar inglês, entrar em times e até falar com empresários” — Guilherme Lima, 12 anos
Assim como Guilherme, muitos jovens da periferia sonham com oportunidades que ultrapassam as fronteiras do bairro e do país. O contato com os estudos, aliado aos sonhos individuais, contribui diretamente para a construção da visão de mundo de crianças e adolescentes.
A exposição ao aprendizado do inglês desde cedo amplia possibilidades e estimula a criatividade em sala de aula. Com a mente ainda em formação, o idioma deixa de ser um obstáculo distante e passa a ser encarado como uma ferramenta de comunicação, descoberta e autonomia.
Guilherme com sua mãe Dayane após a formatura. Foto por: Milena Araújo
Dayane Lima, mãe do Guilherme, esteve presente na formatura do filho na turma de inglês Kids realizada na ONG. Pensando além do mercado de trabalho, Dayane comenta a melhora do filho na escola.
“Tá melhor no inglês do que no português” – Mãe do Guilherme.
Quando o idioma deixa de ser privilégio
Mais do que ensinar uma nova língua, projetos sociais que oferecem aulas de inglês nas periferias atuam como pontes entre realidades desiguais. Ao democratizar o acesso ao idioma, essas iniciativas contribuem para ampliar repertórios culturais, fortalecer a autoestima e mostrar que o conhecimento também pertence às quebradas.
Nesse contexto, aprender inglês não é apenas sobre falar outra língua — é sobre ocupar espaços, compreender o mundo e projetar novos futuros.
Por: Luís Novais.
Luís Novais é estudante de Jornalismo e produtor de conteúdo. Desde 2025, atua como repórter na Taça das Favelas, defendendo a comunicação como ferramenta de transformação e conectando informação, cidadania e desenvolvimento local por meio da cultura e do esporte.