De acordo com reportagens publicadas pela Agência Brasil, todos os anos campanhas como “Não é Não” são reforçadas durante o Carnaval para combater casos de importunação sexual e violência contra a mulher nos blocos e festas pelo país. As matérias destacam que, apesar dos avanços na conscientização, o período ainda registra ocorrências de assédio, principalmente em grandes aglomerações, pois no tumulto as violências são disfarçadas e negligenciadas.
Carnaval é sinônimo de alegria, mas respeito precisa ser regra. Fantasia não é convite, corpo não é público e insistência não é paquera, é violência. Falar sobre esse cuidado é essencial para garantir que a folia seja, de fato, um espaço seguro para todas as mulheres.

Mais do que uma lista de recomendações práticas, é de extrema importância abordar este tema sobre assédio no Carnaval pois ele reflete sobre estrutura social. É reconhecer que a violência contra a mulher não nasce no bloco e do nada, ela é reflexo de uma cultura que historicamente normalizou a invasão do corpo feminino, a insistência como forma de “conquista” e o silêncio como resposta esperada, e como sempre, fazendo a mulher virar uma estatística de jornal, sem mudar o problema enraizado.
O movimento feminista há décadas denuncia essa lógica. A filósofa francesa Simone de Beauvoir já afirmava que a mulher é moldada por construções sociais que a colocam em posição de alerta constante sobre o próprio comportamento. Quando uma mulher precisa planejar rotas de fuga, monitorar sua bebida ou medir suas roupas para evitar julgamentos, isso revela que a liberdade ainda não é plena, ela é condicionada. Nosso direito a vida sempre é posto em risco quando deveríamos ser de fato, livres.
No contexto do Carnaval, essa realidade se torna ainda mais visível. A ideia de que “é só brincadeira” ou que “Carnaval pode tudo” reforça permissões simbólicas para ultrapassar limites. Mas consentimento não muda de significado porque há música alta ou fantasia colorida. Um “não” continua sendo não, em qualquer dia do ano.
Estudos e monitoramentos divulgados pelo Instituto Patrícia Galvão apontam que a importunação sexual é frequentemente minimizada socialmente, mesmo sendo crime previsto em lei. Sempre é visto como exagero ou mentira. Essa minimização é perigosa porque alimenta a repetição da violência e desestimula denúncias. Muitas mulheres deixam de registrar ocorrência por medo, vergonha ou descrédito. Afinal, é pensado “não irá adiantar nada mesmo”.
É fundamental também reconhecer que essa vulnerabilidade não atinge todas da mesma forma. Mulheres negras, periféricas, jovens e LGBTQIA+ enfrentam camadas a mais de risco e invisibilidade. Em bairros de população vulnerável, o acesso à proteção é ainda mais limitado. Falar de Carnaval seguro também é falar de desigualdade social.
Por isso, o debate não pode parar na autoproteção. Orientações são importantes, mas não substituem a responsabilidade coletiva. A mudança real passa por educação para o consentimento, por campanhas permanentes e não apenas em feriados, além de ter homens assumindo o compromisso ativo de rever comportamentos e intervir quando presenciarem abusos.
Criar uma cultura de respeito é um processo contínuo. Significa ensinar que o corpo da mulher não é espaço público. Significa reforçar que diversão não pode existir à custa do constrangimento de outra pessoa. Significa construir redes de apoio onde a vítima é acolhida, acreditada e orientada.
Nesse contexto, iniciativas institucionais também são fundamentais para fortalecer essa rede de proteção. O Rede Delas no ITC surge como um espaço de acolhimento, escuta e conscientização dentro da própria comunidade acadêmica, ampliando o debate para além do período carnavalesco. Ao promover informação, apoio e diálogo contínuo sobre violência de gênero, o projeto se conecta diretamente com o que as campanhas nacionais reforçam todos os anos: a responsabilidade é coletiva. Construir um Carnaval — e uma sociedade — mais seguros passa por criar redes ativas de suporte, onde mulheres saibam que não estão sozinhas e que haverá acolhimento, orientação e ação diante de qualquer situação de assédio ou importunação.
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/lei/l13718.htm
