Elas sustentam famílias, lideram bairros e movem o Brasil — muitas vezes sem reconhecimento, sem salário e sem rede de proteção. Este artigo é sobre elas.
O Brasil tem 215 milhões de habitantes. Mais da metade são mulheres — 51,1%, segundo o Censo 2022 do IBGE. Mas ser maioria em número nunca significou ser maioria em poder, renda ou reconhecimento. Ao contrário: as mulheres brasileiras carregam sobre os ombros uma carga desproporcional de trabalho, responsabilidade e sacrifício — enquanto recebem, em troca, menos salário, menos segurança e menos visibilidade do que os homens.
Este artigo não é uma celebração genérica. É um olhar honesto sobre quem são essas mulheres, o que elas sustentam, o que enfrentam e por que o trabalho de organizações como o ITC — que apostam na educação e no protagonismo feminino como ferramentas de transformação social — importa tanto.
Antes de falar em liderança e protagonismo, é preciso falar no que impede mulheres de exercer plenamente esses papéis. E o maior obstáculo não é falta de capacidade — é a distribuição radicalmente desigual do trabalho doméstico e de cuidados no Brasil.
Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua, IBGE 2022), mulheres dedicam em média 21,3 horas semanais a afazeres domésticos e cuidados com pessoas. Os homens dedicam 11,4 horas — menos da metade. Isso significa que uma mulher brasileira trabalha, em média, quase 10 horas a mais por semana do que um homem em tarefas que não são contabilizadas no PIB, não geram aposentadoria e raramente são reconhecidas como trabalho.
21,3 horas é a média semanal de horas que mulheres dedicam a trabalho doméstico e cuidados no Brasil
Fonte: PNAD Contínua, IBGE 2022
Nas comunidades de baixa renda, essa realidade é ainda mais pesada. Ali, a ausência de creches públicas, de serviços de saúde acessíveis e de equipamentos comunitários faz com que as mulheres — especialmente as mães — precisem cobrir com o próprio corpo e o próprio tempo o que o Estado não oferece. A mãe que não pode trabalhar porque não há com quem deixar o filho. A avó que cria os netos porque a filha precisou sair para sustentar a família. A filha mais velha que abandona a escola para cuidar dos irmãos menores.
Esses não são casos isolados. São padrões estruturais que se repetem em favelas, periferias e zonas rurais de norte a sul do país. E que, na maior parte das vezes, nem aparecem nas estatísticas oficiais de pobreza — porque o trabalho de cuidado que elas fazem simplesmente não é medido.
Quando uma mulher de periferia acorda às 5h da manhã, prepara o café, leva os filhos à escola, trabalha o dia todo, volta para casa, cozinha, dá banho nas crianças e ainda cuida de uma mãe idosa — ela não está sendo “forte”. Ela está sendo abandonada por um sistema que conta com esse esforço sem jamais retribuí-lo.
A economista Hildete Pereira de Melo, uma das maiores especialistas brasileiras em economia do cuidado, estima que se o trabalho doméstico não remunerado fosse contabilizado no PIB brasileiro, ele representaria entre 10% e 13% da economia do país. É um setor inteiro — invisível, feminino e não pago.
fonte do gráfico: https://www.scielo.br/j/se/a/yjf6KzFkTcJJC5qrQFx87PP/?format=html&lang=pt
O Brasil tem cerca de 11,3 milhões de famílias chefiadas por mulheres sem cônjuge e com filhos menores de 18 anos — o que chamamos de mães solo. Segundo o IBGE, esse número cresceu 28% na última década. Essas famílias são, em média, as mais pobres do país.
Entre as famílias beneficiárias do Bolsa Família (hoje Bolsa Família reestruturado), mais de 85% têm mulheres como titulares do benefício. Essa escolha de política pública foi deliberada: pesquisas mostram que, quando o dinheiro passa pela mão da mãe, há maior probabilidade de ser investido em alimentação, saúde e educação dos filhos. A mulher, mesmo em situação de pobreza, tende a ser gestora do bem-estar coletivo da família.
11,3 milhões das famílias no Brasil são chefiadas por mulheres sem cônjuge e com filhos menores
Fonte: IBGE, Censo 2022
Quando olhamos para a cor da pele, a desigualdade se aprofunda ainda mais. Mulheres negras representam 28% da população brasileira, mas concentram as piores condições de trabalho, renda e acesso a serviços. Segundo dados do IBGE de 2023, a renda média de uma mulher negra é 44% inferior à de um homem branco. Elas são maioria nas ocupações de menor remuneração — emprego doméstico, serviços gerais, cuidados — e minoria nas posições de liderança, nos espaços acadêmicos e nas estruturas de poder.
A violência é outro dado que não pode ser ignorado. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2022 foram registrados mais de 31 feminicídios por dia no Brasil — ou seja, mais de 11 mil casos no ano. O feminicídio é a expressão mais extrema de uma violência que começa muito antes: no controle, no isolamento, na dependência econômica que o trabalho doméstico não remunerado impõe.
A mulher que não tem renda própria não é apenas economicamente dependente. Ela é estruturalmente vulnerável. A autonomia financeira é, muitas vezes, a diferença entre ter ou não a liberdade de sair de uma situação de violência.
É por isso que programas de educação, qualificação profissional e geração de renda voltados para mulheres em situação de vulnerabilidade não são apenas políticas de inclusão — são, literalmente, políticas de proteção à vida.
O Brasil tem uma história profunda de mulheres que, saindo de contextos de extrema vulnerabilidade, se tornaram agentes de transformação coletiva. Elas não esperaram por condições ideais. Transformaram o que tinham — a voz, a experiência e a raiva justa — em força política e social.
Carolina Maria de Jesus nasceu em Sacramento, Minas Gerais, em 1914, filha de trabalhadores rurais negros. Sem terminar o ensino fundamental, foi parar na favela do Canindé, em São Paulo, onde criava três filhos catando papel e lata. Nos cadernos que encontrava no lixo, ela escrevia. Em 1960, seu diário foi publicado como “Quarto de Despejo” — e se tornou um dos livros mais vendidos da história brasileira, traduzido para mais de 40 idiomas. Carolina não esperou que alguém contasse sua história. Ela mesma a contou.
Marielle Franco foi vereadora do Rio de Janeiro pelo PSOL, eleita em 2016 com 46.502 votos — a quinta candidatura mais votada da cidade. Filha da Maré, uma das maiores favelas do Rio, ela era mulher, negra, favelada, lésbica e mãe. Em seu mandato de dois anos, defendeu os direitos das mulheres periféricas, das pessoas LGBTQIA+ e das comunidades negras com uma clareza e uma coragem raras. Em março de 2018, foi assassinada junto com seu motorista Anderson Gomes. Sua morte chocou o Brasil e o mundo — mas seu legado segue vivo em milhares de mulheres que ela inspirou a ocupar espaços políticos.
Laudelina de Campos Melo foi fundadora, em 1936, da primeira associação de trabalhadores domésticos do Brasil, em Santos. Numa época em que trabalho doméstico nem sequer era reconhecido pela legislação trabalhista, ela organizou, lutou e nunca desistiu. Décadas depois, em 2013, a PEC das Domésticas — que garantiu direitos trabalhistas plenos às cerca de 7 milhões de trabalhadoras domésticas do país — foi uma conquista que passou pela luta que ela começou.
Essas mulheres não transformaram suas comunidades apesar de suas origens. Elas as transformaram por causa delas — porque viveram na pele o que precisava mudar, e decidiram fazer algo a respeito.
Hoje, esse protagonismo se manifesta de formas diversas. Nos coletivos de mães nas periferias que constroem hortas comunitárias e redes de apoio. Nas mulheres indígenas que lideram a defesa dos territórios em estados como o Pará e o Mato Grosso. Nas empreendedoras de bairros populares que abriram pequenos negócios durante a pandemia para sustentar suas famílias quando o emprego formal desapareceu.
Segundo o Sebrae, as mulheres representam 34% dos empreendedores individuais do Brasil — e a maior parte desse empreendedorismo feminino nasce da necessidade, não da oportunidade. É a costureira que virou pequena confecção, a cozinheira que virou marmiteira, a cabeleireira que montou o salão no quintal. São negócios criados na margem do sistema formal, mas que sustentam famílias inteiras e movimentam as economias locais de bairros periféricos.
As três obras abaixo não são apenas livros — são documentos vivos sobre mulheres brasileiras e do mundo que resistiram, criaram e transformaram suas realidades. Recomendamos como leitura complementar a este artigo.
Livro 1
Quarto de Despejo — Diário de uma Favelada
Carolina Maria de Jesus · Editora Ática, 1960
Escrito em cadernos encontrados no lixo, este diário narra o cotidiano de Carolina Maria de Jesus — mulher negra, catadora, mãe de três filhos, moradora da favela do Canindé em São Paulo. Com escrita crua e poderosa, ela registra a fome, a luta pela sobrevivência e uma dignidade que o sistema tentava apagar todos os dias. Publicado em 1960, tornou-se um dos livros mais vendidos da história do Brasil e foi traduzido para mais de 40 idiomas.
Por que ler? Este livro importa porque vem de dentro. Carolina não foi estudada por pesquisadores — ela mesma se tornou a narradora e protagonista de sua realidade. Para quem trabalha com impacto social, sua leitura é um lembrete fundamental: as pessoas que vivem em situação de vulnerabilidade têm voz, têm perspectiva e têm muito a nos ensinar. Ouvir é o primeiro passo de qualquer transformação real.
Livro 2
Eu Sou Malala
Malala Yousafzai com Christina Lamb · Companhia das Letras, 2013
Malala cresceu no Vale do Swat, no Paquistão, onde os talibãs proibiram meninas de frequentar a escola. Aos 15 anos, foi baleada na cabeça por defender o direito à educação feminina — e sobreviveu. Este livro é seu testemunho: uma história de coragem, fé na educação como instrumento de liberdade e recusa absoluta em silenciar diante da opressão. Malala se tornou a pessoa mais jovem a receber o Prêmio Nobel da Paz, em 2014.
Por que ler? A trajetória de Malala dialoga diretamente com o trabalho do ITC: a educação não é apenas um direito formal — é uma ferramenta de proteção, autonomia e transformação. Sua história acontece no outro lado do mundo, mas ressoa com força aqui, onde meninas de periferias também enfrentam obstáculos reais para continuar estudando. Ler Malala é reafirmar por que vale a pena lutar por educação todos os dias.
Livro 3
Becos da Memória
Conceição Evaristo · Pallas Editora, 2006
Neste romance semificcional, Conceição Evaristo — escritora mineira, filha de trabalhadora doméstica, professora e doutora em Literatura Comparada — narra a vida de mulheres negras e pobres em uma favela prestes a ser demolida. Com a sua chamada ‘escrevivência’ — uma escrita que nasce da vivência coletiva das mulheres negras — Evaristo transforma memória, dor e resistência em literatura de altíssimo nível. A obra foi escrita nos anos 1980 e publicada apenas em 2006, depois de décadas de recusas de editoras.
Por que ler? Conceição Evaristo é uma das vozes mais importantes da literatura brasileira contemporânea — e uma prova viva de que talento não falta onde falta oportunidade. Seu livro nos desafia a enxergar a complexidade e a beleza presentes nas comunidades que o ITC acompanha. Para além dos dados e das métricas, há histórias humanas profundas. A escrevivência de Evaristo nos convida a escutá-las com muito mais atenção.

Por: Ana Cláudia
Sobre a autora
Ana Cláudia é estudante de Psicologia em fase de conclusão, mãe e militante ativa pelos direitos das mulheres. Acredita que compreender as pessoas é o primeiro passo para transformar o mundo — e que essa transformação começa quando damos voz a quem sempre foi silenciado. Escreve movida pela convicção de que conhecimento e afeto andam juntos. Faz parte do Instituto Transformação Cidadã porque sabe, na pele, o que significa resistir e recomeçar.
IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) — Outras Formas de Trabalho. Rio de Janeiro: IBGE, 2022.
IBGE. Censo Demográfico 2022: Primeiros Resultados. Rio de Janeiro: IBGE, 2023.
IBGE. Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 2023.
Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2023. São Paulo: FBSP, 2023.
PEREIRA DE MELO, Hildete; CONSIDERA, Claudio Monteiro. As tarefas domésticas no Brasil. Rio de Janeiro: IPEA, 2007.
Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social. Relatório de Gestão do Programa Bolsa Família 2023. Brasília: MDS, 2023.
SEBRAE. Perfil do Microempreendedor Individual 2023. Brasília: SEBRAE, 2023.
DE JESUS, Carolina Maria. Quarto de Despejo — Diário de uma Favelada. São Paulo: Editora Ática, 1960.
YOUSAFZAI, Malala; LAMB, Christina. Eu Sou Malala. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
EVARISTO, Conceição. Becos da Memória. Rio de Janeiro: Pallas Editora, 2006.
